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Mudanças climáticas e produção de alimentos: o que as mulheres têm a ver com isso
22 de março de 2022 Diangela Menegazzi
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Fauna e flora se reproduzindo, água em abundância, temperaturas equilibradas e chuvas regulares são situações que estão cada dia mais difíceis de serem vistas e sentidas. Ao contrário, se tornou mais comum ocorrerem tempestades severas, altas ondas de calor, escassez hídrica e incêndios. Um desequilíbrio total dos ecossistemas que contribuem inclusive ao surgimento de muitos vírus, como a Covid-19. Todas essas situações, que têm sido mais frequentes e intensas, são resultados das mudanças climáticas, que ocorrem em grande parte pelo “modelo produtivo” pautado na monocultura e uso de insumos químicos.

No Brasil, o agronegócio tem se mostrado historicamente como o grande responsável por transformações no clima. Uma pesquisa divulgada em 2020 pelo Mapbiomas, mostrou que entre 1985 e 2020, 90% das áreas desmatadas no país foram destruídas para dar espaço à agropecuária – seja com a produção de grãos, que alimentam a criação, ou com os próprios animais, o que a torna a principal responsável pelo desmatamento. Além disso, a fim de abrir mais espaço para produzir, as queimadas nas áreas de floresta e mata nativa são crescentes. Situação que, além de aumentar a emissão de gases como o carbono e o metano, destrói instantaneamente o habitat de animais, plantas e outros organismos vivos da natureza, colocando em risco ecossistemas inteiros.

Em contrapartida a esse cenário, as mulheres e seus quintais produtivos – áreas próximas à residência onde se cultivam múltiplas espécies – e com a implantação da agroecologia, têm sido fundamentais na mitigação das mudanças climáticas. Além de garantirem a produção de alimentos diversificados e saudáveis em equilíbrio com o meio ambiente, elas têm atuado para recuperar a agrobiodiversidade e os ecossistemas, se mostrando verdadeiras guardiãs da terra, das águas e das florestas.

Para Noemi Margarida Krefta, camponesa do município de Palma Sola, de Santa Catarina, integrante do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, “enquanto o agronegócio tem como princípio a monocultura, a agroecologia consorcia diferentes espécies vegetais e animais, e ainda produz alimentos diversos, garantindo a proteção e recuperação de nascentes de água, das plantas nativas, dos animais e de toda a agrobiodiversidade.” 

De acordo com Noemi, é necessário refletir sobre o modo de produção imposto pelo agronegócio e a revolução verde, pois as mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes. “Repensar o modo de fazer agricultura é urgente, é preciso erradicar o uso dos agrotóxicos, que estão matando nossas águas, florestas, nossa alimentação, acabando com saúde não só das pessoas, mas de todo tipo de vida. Os insumos químicos, sintéticos e as sementes transgênicas precisam estar na nossa agenda de lutas, só assim poderemos preservar as sementes crioulas tão ameaçadas de extinção.”

Neste processo de regeneração da agrobiodiversidade, Noemi conta que as mulheres têm se destacado pois conseguem, a partir dos seus quintais produtivos, produzir alimentos e garantir a preservação e multiplicação das sementes crioulas, fundamentais para a recuperação da terra, das águas e das florestas.

“As mulheres camponesas concebem no seu quintal produtivo um espaço das grandezas capazes de suprir as necessidades alimentares e nutricionais dos que ali convivem, seja das pessoas, seja dos pequenos animais. Com isso, temos como missão produzir alimentos saudáveis, mas também cuidar das sementes crioulas, as quais sabemos como recuperar e melhorar. Cultivamos plantas medicinais e aromáticas, árvores nativas e frutíferas. Diversificamos a produção e melhoramos a alimentação, que dá o equilíbrio saudável ao nosso organismo, mas, além disso, vamos equilibrando e recuperando o ambiente onde vivemos”.

Para amenizar os efeitos das mudanças climáticas na agricultura familiar, Noemi ressalta que a implementação de práticas e técnicas agroecológicas e a preservação das sementes crioulas, feitas em grande parte pelas mulheres, são fundamentais. 

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Foto: Noemi Klein

“Recuperar, melhorar e produzir sementes crioulas e as plantas nativas traz consigo a diversificação da produção, mas também repõe os nutrientes necessários para manter a fertilidade do solo e contribui para melhor utilização das águas da chuva, que não evaporam tão rapidamente. Fazer reciclagem de toda matéria orgânica, também fortalece e dá vida ao solo e as plantas. Aproveitar as águas das chuvas contribui para menor exploração das fontes e nascentes que vão sendo protegidas por agroflorestas, que além de dobrar a quantidade de água ainda produz frutos que alimentam as pessoas e os pássaros.”

As práticas agroecológicas pautam ainda a construção de relações igualitárias entre seres humanos e destes com a natureza. “Quando as mulheres estudam e aplicam os conhecimentos da agroecologia, elas olham para o todo do ambiente e contribuem para a construção de relações mais saudáveis entre as pessoas e destas com a natureza. Por isso, sem a participação efetiva das mulheres nos espaços de poder e decisão, sem a superação das violências praticadas contra as mulheres, poderá até ter produção orgânica, mas não haverá agroecologia. Agroecologia presume vida em harmonia, meio ambiente saudável, sem exploração de um ser vivo de qualquer espécie sobre outro(a)”.

Recuperação da agrobiodiversidade 

Jovana Cestille, assentada da reforma agrária e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Assentamento Eli Vive, em Londrina, região norte do Paraná, conta que quando as mais de 500 famílias ocuparam a área de cerca de 7 mil hectares das antigas fazendas Guairacá e Pininga, em setembro de 2013, o espaço era tomado por “capim”, sem matas e com pouca água. Segundo ela, quando saiu o decreto de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 2014, a família sonhava com um lote cheio de biodiversidade, fato que não ocorreu.

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Jovana Cestille, assentada da reforma agrária e militante do MST, do Assentamento Eli Vive, em Londrina, região norte do Paraná – Foto: Davi Jose da Costa

“O processo de distribuição dos lotes no Assentamento Eli Vive foi por sorteio. Nós sonhávamos em conquistar um lote que tivesse uma reserva florestal com água, mas a gente acabou pegando um lote que tinha apenas três árvores e nenhuma água correndo nele. Uma parte dessa área estava tomada pelo picão e outra por guanxuma, não tinha biodiversidade. Então, nós fomos plantando a biodiversidade, trabalhando com a adubação verde. Hoje temos um solo bem mais rico, por exemplo, antes se quiséssemos pescar e precisasse de uma minhoca não achava, agora quando mexemos na terra encontramos muitas. Fomos melhorando o solo e recuperando a fauna”, conta.

De acordo com Jovana, desde que foram assentados, ela e a família buscaram realizar o reflorestamento e recuperação das espécies nativas da região, através da agrofloresta e implementação da agroecologia. “Nossa principal missão é reflorestar esse espaço, tentando organizar o lote e a produção de forma agroecológica dentro da discussão de reforma agrária popular. Então, desde 2016 implementamos uma agrofloresta que tem árvores para madeira, outras nativas da mata atlântica e as frutíferas, entre elas, a acerola, manga, goiaba e 150 pés de abacate que devem começar a produzir a partir do próximo ano. Temos também as frutíferas nativas da região, a uvaia, gabiroba, ingá, jaracatiá, jatobá.”

A assentada do MST explica que com a implementação da agrofloresta no lote, já se vê uma grande diversidade de animais. “Uma área que não tinha praticamente fauna, hoje vemos várias lebres correndo, lagartos, uma diversidade de pássaros. Conforme vamos recuperando a área, vão aparecendo novas plantas, novos animais, já chegamos a ver veado, saruê. É uma diversidade de animais que têm aparecido e nós aprendemos a conviver com esses animais. Algumas plantas também que conseguimos capinar tudo, deixamos vir para virar matéria orgânica para o solo. Então, estamos fazendo a recuperação do solo, e a fauna está aparecendo aqui de forma espontânea.”

Ela frisa que esse equilíbrio e respeito com a natureza garante uma grande e diversa produção de alimentos agroecológicos. “Na agrofloresta temos o café, que já fizemos a primeira colheita. Em 2020 passamos a trabalhar com as plantas aromáticas, condimentares e medicinais destinadas para a extração de óleos essenciais, como a melaleuca, eucalipto dunni e citriodoro, erva-baleeira, um potente anti-inflamatório que foi muito utilizado pelos nossos ancestrais, mas que caiu no esquecimento e hoje vem sendo recuperado. Temos também o alecrim, lavanda, alfavaca cravo, capim-cidreira, mil-em-rama e uma diversidade de plantas. Também trabalhamos com as hortaliças, como: alface, rúcula, beterraba, cenoura, almeirão, chicória e tomate.” 

Para Jovana, preservar a natureza e amenizar os efeitos das mudanças climáticas é possível, mas para isso é necessário fortalecer os movimentos de mulheres, famílias agricultoras, redes e entidades que desenvolvem ações de proteção e multiplicação das sementes crioulas, as agroflorestas e a agroecologia. “Pra gente fazer os reflorestamentos, retomar a biodiversidade e conviver da melhor forma possível com as mudanças do clima, é preciso apoiar as pessoas e famílias dos assentamentos e comunidades dos pequenos agricultores fazendo a troca e produzindo sementes e mudas, implementando as agroflorestas. É preciso fortalecer projetos e espaços que produzem biodiversidade, como os viveiros, e as ações dos agricultores em torno das técnicas tradicionais e dos produtos, como as caldas, os adubos e as receitas”.

A agricultora finaliza frisando a importância das mulheres nesse processo de proteção e multiplicação das sementes crioulas e da agrobiodiversidade. “As mulheres têm um papel muito importante nisso tudo, pois sempre foram elas que guardaram e fizeram a troca das sementes de hortaliças, flores, medicinais… Elas sempre tiveram essa preocupação e cuidado com a vida. Contudo, pra gente continuar avançando na agroecologia, precisamos avançar na igualdade de gênero. Quando lutamos pelo feminismo e contra o machismo, nós estamos lutando pela igualdade de direitos. E, quando a mulher tem a possibilidade de participar de todas as discussões e encaminhamentos do seu lote, com seu companheiro, com sua família, nós conseguimos avançar na agroecologia.”

Texto: Equipe de Comunicação da Rede Sementes de Agroecologia.

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