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Tempo para refletir e evoluir

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Tempo para refletir e evoluir

A sociedade enfrenta, na atualidade, um momento atípico de sua história. Por consequência de uma doença nova, causada por um vírus até então desconhecido, fomos forçados a alterar nosso dia a dia, com maior ou menor rigor, a depender do índice de propagação e gravidade da Covid-19. Porém, é fato que para todos nós o período atual gera estranheza, nos assusta e traz desafios para a economia e para a vida. Este momento nos forçou a passar mais tempo em casa, mais tempo com nossos familiares e, talvez, a experimentarmos novas situações. O recolhimento social por vezes incomoda, mas também nos traz oportunidades de aprendizado. Essa situação nos trouxe a importância da reflexão acerca do conceito do verbo cuidar. De modo geral, passamos a nos preocupar mais com a saúde de nossos familiares e conhecidos, a cuidarmos deles como nunca antes (talvez, em um primeiro momento, mais por medo do que por consciência). Também passamos a observar, a nível global, a relevância do ato de cuidar, referindo-se à totalidade da criação de Deus. Estamos testemunhando diversas espécies de animais silvestres voltando a aparecer às proximidades e áreas centrais do meio urbano, e também nos rios e mares.
O grande problema do século são as mudanças climáticas, que têm como principal causa o aumento da concentração dos gases do efeito estufa na atmosfera, em decorrência, dentre outras questões, da interferência humana sobre os ecossistemas naturais. Por mais que diversas reuniões, intergovernamentais e da sociedade civil, tenham sido feitas nas últimas décadas, para buscar uma solução global a esse problema, poucas medidas consistentes conseguiram ser cumpridas pelos países. Agora, neste momento de reclusão, observamos a concentração dos gases tóxicos reduzir drasticamente. Em poucos dias atingimos um impacto positivo para a vida na Terra, algo que levaríamos décadas com as ações de mitigação dos impactos. Isso nos mostrou que há a possibilidade (e a necessidade) de conciliarmos o desenvolvimento econômico à preservação e promoção da vida, garantindo a sua coexistência às gerações futuras.
Diante desse cenário, enquanto país com uma grande quantidade de terras agricultáveis e uma riqueza cultural única, o Brasil precisa avançar na construção de conhecimentos e experiências em formas de agricultura que garantam a produção de alimento e a promoção do cuidado, em harmonia com a natureza. As diversas formas de praticar uma agricultura ecológica, inclusive por meio de sistemas agroflorestais, reforçam o conceito de cuidado, pelas mãos de quem planta, e da qualidade do alimento ofertado para a sociedade. Nesse sentido, há a busca pelo avanço do cooperativismo no Rio Grande do Sul, onde foi desenvolvida a Cadeia Produtiva Solidária das Frutas Nativas, a qual consiste em um esforço de diferentes entidades, cooperativas e famílias agricultoras, com o intuito de valorizar as frutas e produtos dos ecossistemas naturais da região Sul, de forma que gere renda às famílias de produtores e produtoras e contribua com a preservação das florestas. Alguns produtos surgiram das iniciativas desse esforço coletivo: polpas congeladas, picolés e bolachas produzidas a partir de frutas e sementes nativas, como butiá, jabuticaba, araçá, guabiroba, pinhão, juçara, entre outras.
Em Erexim, na região norte do estado, por meio da parceria entre agricultores/agricultoras e agroindústrias familiares, é realizada a busca pela organização da colheita e processamento da matéria-prima. Antes do isolamento social foram realizadas ações de divulgação dos produtos a sociedade: primeiramente, em um jantar de apresentação de receitas que os utilizavam, voltado aos pequenos empreendimentos e profissionais da região (restaurantes, nutricionistas, cafeterias e organizações solidárias ligadas ao tema). Em outra oportunidade, a Cadeia Produtiva Solidária das Frutas Nativas promoveu ações de divulgação e degustação de sucos preparados com polpas de frutas nativas e picolés produzidos com as mesmas. As atividades contaram com a parceria da Cooperativa de Agricultores e Agricultoras Familiares Nossa Terra e realizadas em uma feira de produtos da agricultura familiar e orgânicos do município.
Diante das crises também há espaço para as oportunidades. Por isso, devemos ter a sabedoria de enfrentar este período com prudência, cuidando de nossos irmãos e irmãs, de nossos lares e, também, de nós mesmos. Nesse sentido, surge a necessidade de nos preocuparmos, ainda mais, com o nosso próprio corpo e com uma alimentação saudável, sempre cultivando a esperança em dias melhores.

Texto e foto: Engenheiro Agrônomo Martin Witter
Edição de texto: Vicente Giesel Hollas