Mortandade de abelhas pauta Simpósio

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Mortandade de abelhas pauta Simpósio

Preservar a vida das abelhas, das plantas dependentes da sua polinização e de animais que destas se alimentam é um grande desafio para a sobrevivência da humanidade nos dias atuais. Em todo planeta, a cada ano diminui o número de colmeias. Em outubro de 2018, um episódio acontecido em Mata (RS), provocou a morte de, no mínimo, 25 milhões de abelhas em menos de uma semana.

Este fato contribuiu para a pequena cidade do Bioma Pampa receber o Simpósio Internacional Sobre Mortandade de Abelhas e Agrotóxicos, em 28 de março, promovido pela APISBio (Articulação Para a Preservação da Integridade dos Seres e da Biodiversidade) e pela APISMA (Associação dos Apicultores e Meliponicultures de Mata). Participaram do evento 381 pessoas, 75 entidades/órgãos/instituições provenientes de 15 cidades, sete estados e cinco países.

Fábio André Mayer, Engenheiro Agrônomo, representou o CAPA/ Ñúcleo Pelotas (RS) no evento. “Em duas mesas temáticas conversamos sobre a necessidade de existirem medidas para restringir e punir quem utiliza venenos que contaminam o ambiente e matam abelhas. Uma ideia é mapear de onde vem esse veneno”, explica Fábio.

O problema da mortandade das abelhas foi o título da primeira mesa temática, que teve a participação de agricultores, técnicos e professora doutora, sendo encerrada com o vídeo Medo da Primavera, do Coletivo Catarse. Na segunda mesa, Natureza, instituições e reponsabilidades, estiveram professora doutora, doutores, guardião de sementes e advogados, entre eles o coordenador da APISBio, José Renato de Oliveira Barcelos.
No final do evento foi apresentada a Carta de Mata (ver quadro abaixo), já traduzida para espanhol, italiano e inglês, e também protocolada uma representação coletiva no Ministério Público Estadual, firmada por 25 organizações, associações, movimentos sociais, cientistas independentes e juristas, sobre a mortandade de abelhas por agrotóxicos em Mata.

O dia da catástrofe
Segundo relatam agricultores, (conforme consta no documentário Medo da Primavera), no dia doze de outubro, eles ouviram o barulho de um avião que sobrevoou a rota das colmeias. Três dias depois, as abelhas apareceram mortas e a Polícia Ambiental veio à Mata coletar amostras para realizar análise química.

Na área de vôo, exatamente onde estavam as abelhas mortas, abrangendo cerca de 8 km de extensão por 18 km de comprimento, foram coletadas amostras em quatro pontos: no início, no final do vôo e em cada lado. Ali, ocorreu mortandade de abelhas em 420 colmeias.

Segundo a Inspetoria Veterinária do RS, em todas as amostras de abelhas mortas foi verificada a presença de fipronil, um princípio ativo permitido pela Anvisa e presente em três dos venenos liberados pelo governo de Jair Bolsonaro, que no total, até 21 de maio, somam 197 (ver matéria página central). O fipronil, proibido na União Europeia, é usado no cultivo da soja, que no RS vem substituindo a vegetação original do Bioma Pampa.
Outro dado relatado pelos agricultores é a diminuição da produção de mel e que as colmeias de Apis tem desaparecido nos últimos anos, com o aumento da cultura da soja. Tal impacto nas abelhas nativas ainda é desconhecido.

Abelhas nativas ausentes
“Atualmente, a espécie de abelhas utilizada como modelo de estudo no país para os testes de toxicidade é a espécie exótica A. mellifera. É essencial que métodos e resultados comparativos com Apis sejam desenvolvidos com abelhas nativas, para averiguar a segurança de sua utilização como modelo”, comenta a pesquisadora Annelise de Souza Rosa-Fontana integrante do Laboratório de Ecotoxicologia e Conservação de Abelhas (LECA) UNESP/Rio Claro (SP).

Um estudo do LECA constatou que as abelhas nativas possuem uma sensibilidade muito maior do que as Apis diante da mesma quantidade de veneno a que foram submetidas. Nos últimos meses, Annelise participou de eventos em Roma e na Finlândia para “demonstrar a importância da inclusão de uma espécie de abelha sem ferrão em avaliações de risco de agrotóxicos no Brasil”, explica ela, que virá a São Luiz Gonzaga/RS, para participar da Reunião sobre Preservação de Polinizadores no RS, em dois e três de outubro, durante a ExpoSãoLuiz.

Encaminhamentos
“Após as ações devenvolvidas no Simpósio de Mata, protocolamos uma outra Representação no Ministério Público Federal, em 22 de maio com a pretensão de federalizar a discussão, aumentando assim o critério de proteção e a possível proibição do fipronil em todo o território nacional”, enfatiza Renato.

Na mesma data, o coordenador da APISBio participou do lançamento da Frente parlamentar de proteção da apicultura e meliponicultura, na Assembléia Legislativa Gaúcha. “Essa frente está construindo um calendário de audiências públicas itinerantes no Estado ainda neste ano”, conta.

Renato pontua que “devemos agir agora para impedir nova mortande na próxima primavera. A APISBio já se tornou uma referência nesta temática, pois criamos um grupo de cientistas para aprofundar o tema e, assim, ‘disputar as narrativas’ com as agroquímicas, esclarecendo a sociedade acerca do perigo oculto na mortandade das abelhas e dos polinizadores em geral que já estão sendo atingidos em larga escala”.

Para saber mais: Veja no YouTube o vídeo Medo da Primavera – uma hecatombe em andamento. A cobertura do Simpósio está no facebook do Coletivo Catarse, aba vídeos, na data de 28.03.2019.

Reportagem: Cláudia Dreier

Carta de Mata

As entidades que integram a APISBio e a APISMA, reunidas no “Simpósio Internacional sobre Mortandade de Abelhas e Agrotóxicos”, vem a público, por meio desta CARTA, externar o seu compromisso com a defesa incondicional da biodiversidade e das presentes e futuras gerações, em uma perspectiva de equidade intergeracional.

A defesa da natureza não admite falhas! Devemos estar comprometidos de forma firme e resoluta em preservar as espécies que compõem o nosso ecossistema, protegendo-as de toda e qualquer contaminação química que ameasse a vida, sobretudo porque nós, seres humanos, seremos as maiores vítimas e os mais prejudicados.

Hoje, não há mais dúvidas na comunidade científica mundial de que os agrotóxicos são os responsáveis principais pela mortandade das abelhas em escala jamais antes vista em outro tempo. Metade dos insetos está rapidamente diminuindo enquanto um terço já está considerada em extinção. Os cientistas concluem que, se não mudarmos as técnicas de produzir os nossos alimentos, todos insetos entrarão em extinção em poucas décadas (Francisco Sánchez-Bayo e Kris Wyckhuys, 2019).

Se não agirmos imediatamente, o custo ambiental do modelo de agricultura hegemônica praticado no país – químico-dependente de agrotóxicos, fundamentado na exploração de grandes extensões de terra, em cultivos agrícolas de baixo valor agregado e produtor de commodities como a soja –, tem se mostrado extremamente elevado e não justifica, em absoluto, os ganhos econômicos que produz, sobretudo porque tem colocado em perigo a natureza, a vida em todas as suas formas e a espécie humana.

Não podemos mais nos dar ao luxo de sermos otimistas: a vida humana e do planeta estão em perigo e cabe a nós a sua defesa. Estamos vivendo já “na conta” das gerações futuras e não temos o direito de sacrificar a natureza em nome do lucro, lucro este que hoje é concentrado na mão de poucos em detrimento de muitos.

Assim, a APISBio e a APISMA, em um esforço internacional voluntário e que harmoniza e coloca como protagonistas entidades e movimentos da sociedade civil, da cidade e do campo, junto a um grupo de cientistas comprometidos com a salvaguarda do direito à vida, em todas as suas formas, lançam a presente carta como libelo de princípios e proposta de ação concreta contra a contaminação e mortandade de abelhas pelo uso de agrotóxicos, morte de espécies e pela construção de um novo modelo de relação com a natureza e, nele inserido, um novo paradigma de agricultura.

28 de março de 2019, Mata, Rio Grande do Sul, Brasil