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​Núcleo de Agroecologia do Alto Uruguai promove V Seminário
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Evento integra conjunto de ações voltadas à manutenção e fortalecimento do núcleo

O encontro, realizado no dia 22 de novembro de 2018, abordou, principalmente, a relação entre a população jovem e a agroecologia. Entre os assuntos debatidos estavam as possibilidades de trabalho a serem desenvolvidas pela agricultura familiar, as relações sociais predominantes no meio e a participação do/da jovem nos processos produtivos. Além da preocupação com a questão da sucessão rural, experiências de cultivo bem-sucedidas também foram destaque no seminário.

Pela manhã o foco esteve sobre os vínculos dos/das jovens com a agricultura. O debate foi guiado por intermédio do painel: “Juventude e Agroecologia: família, sociedade e Estado”, conduzido pela doutora e professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Naira Estela Roesler Mohr, pelo coordenador do Sindicato Unificado dos Trabalhadores da Agricultura Familiar do Alto Uruguai (Sutraf-AU), Douglas Cenci, e pelo engenheiro agrônomo da Emater Regional, Valdir Zonin. A apresentação do painel promoveu uma discussão relevante acerca dos fatores estruturais que, atualmente, estimulam a busca por empregos na cidade e afastam os jovens do campo.

Para a resolução dessas questões, algumas ações já estão sendo realizadas, como o Plano Nacional de Juventude e Sucessão Rural, que já foi elaborado. Os programas de ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural) também desenvolveram (e desenvolvem) projetos importantes para viabilizar e motivar a permanência do jovem no campo. No Rio Grande do Sul, a criação do Conselho Estadual de Juventude e a implementação do programa Bolsa Juventude Rural também contribuíram com o caso. No que se refere ao apoio popular, foram discutidas as possibilidades futuras de apoio a causa, como as lutas sociais para autonomia e condições dignas de trabalho para o jovem e o incentivo aos processos de recampenização.

As universidades podem e vem realizando ações para ajudar na solução dos problemas. A este respeito, Mohr dividiu o papel institucional em três dimensões: a primeira seria a oferta de cursos de graduação que possibilitem que o/a jovem estude sem, necessariamente, perder o vínculo com a terra. O segundo âmbito estaria relacionado aos programas e projetos de extensão capazes de proporcionar melhorias objetivas na qualidade de vida no campo, como cursos e atividades que fortaleçam a solidariedade e a viabilidade econômica nos processos produtivos. Experiências na produção ecológica, o incentivo ao trabalho em “rede” e a preocupação em entender os anseios da juventude, mediando estratégias para a resolução dos impasses existentes, também foram aspectos salientados pela doutora. Mohr enfatiza o poder que os programas de extensão têm para auxiliar na compreensão da realidade social: “Pontos do debate geracional e das relações de gênero não podem ficar fora desta discussão”. O terceiro campo de influência da universidade seria por meio da produção de conhecimento, ou seja, através dos projetos de pesquisa. Esses devem, segundo a professora, estar comprometidos com a agricultura familiar-camponesa, ecológica e solidária.

As três dimensões – ensino, extensão e pesquisa – precisam estar articuladas entre si e com personalidades e coletivos imersos nesta realidade: “talvez este tem sido o maior desafio, ou seja, de transcender a forma tradicional e elitizada que as instituições operam, desconsiderando o contexto e as necessidades locais”, conclui Mohr.

A doutora ainda comentou sobre as políticas públicas de contenção ao êxodo rural, salientando o caráter compensatório e preconceituoso com que as mesmas foram conduzidas historicamente. Para que programas justos sejam implementados seria necessária a compreensão dos vários aspectos, gerais e específicos, que levam o/a jovem a abandonar a agricultura. De acordo com ela, a base do processo é a desvalorização da mão de obra no campo, a qual resulta do modo de produção capitalista.

Deste modo, as políticas públicas deveriam proporcionar melhores condições de trabalho e remuneração aos/às jovens que desejam permanecer na área rural, desconstruindo as formas que reproduzem a exploração do trabalho: “Por exemplo, é necessário discutir as condições de subordinação que muitos jovens e mulheres enfrentam dentro das próprias famílias. Que seja investido recursos públicos em projetos produtivos amparados em práticas humanizadoras, solidárias e saudáveis, criando condições de uma vida melhor e mais feliz”, concluiu a professora.

A respeito das ações que a UFFS está promovendo para resolver o dilema, Mohr destacou a ênfase que determinados cursos de graduação e pós-graduação atribuem aos temas relacionados com a problemática em questão. Além disso, projetos de extensão aliados à agroecologia e economia solidária, bem como a formação de professores, também buscam aproximar o campo acadêmico da agricultura familiar e viabilizar o processo de sucessão rural. Entretanto, destacou a necessidade de se atingir um número maior de pessoas, além de qualificar a produção e disseminação de conhecimentos no âmbito popular, prezando pela resolução dos problemas sociais em primeiro plano, e não das adversidades econômicas provenientes do mercado capitalista.

Já na parte da tarde, foram apresentadas e debatidas três experiências agroecológicas. O agricultor Josué Vicente Grégio, assessorado pelo Centro de Tecnologias Alternativas Populares (Cetap), comentou sobre o sistema agroflorestal que desenvolveu em sua unidade de produção. Flávia Comiran, produtora sob assessoria do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA), apresentou os cultivos realizados por ela e sua família no Sítio Moukondo, no município de Áurea-RS. Por último, Fátima Ostrowski, assessorada pela Emater/RS, e a extensionista social da entidade, Joice Schneider Marmentini, relataram experiências na produção de erva-mate, laranja e mandioca.

A respeito da agroecologia, Grégio a concebe como “meios agrícolas baseados nos processos ecológicos, onde o indivíduo (pessoa) é parte integrante do fluxo da vida”. Nesse sentido, integrar um ambiente agroecológico significa promover sistemas benéficos aos seres vivos. Além disso, em virtude da complexidade da vida, o produtor frisa que o modelo é capaz de produzir alimentos em quantidades muito maiores e com qualidade superior em relação aos provenientes da agricultura convencional. Para ele, a agroecologia possibilita aos seres humanos “um retorno às origens”, na qual esses estabeleciam um nível de relação com a natureza que impedia a sensação de serem elementos externos a ela. O modelo de produção, ao integrar os indivíduos em seu sistema, faz com que os mesmos se sintam novamente parte integrante do mundo natural. De acordo com Grégio, a alimentação saudável aparece como uma consequência do processo produtivo bem desenvolvido.

O agricultor afirma que foi a proximidade com os meios naturais e a viabilidade do sistema que o motivaram a cultivar nos moldes agroecológicos. “É uma agricultura que não agride, pois não usa agrotóxicos, adubos químicos e não depende de pacotes ou aporte de materiais externos para a produção”. Quanto às agroflorestas, comenta sobre certa dificuldade na comercialização dos produtos, gerada, principalmente, pela baixa demanda por maior diversidade de alimentos, característica desse modo de produção. Em contrapartida, destaca não somente a boa produtividade do sistema, mas também a realização de trabalhos de recuperação florestal através da agricultura.

O agricultor Josué Vicente Grégio comenta sobre experiência com sistema agroflorestal

Texto: Vicente Giesel Hollas

Fotos: Ingrid Margarete Giesel